Para começar a semana: três citações de Marcelo Gleiser


Não li nenhum livro de Marcelo Gleiser. Parecem interessantes. Muito eventualmente, leio os textos que ele escreve para o caderno “Ciência”, da Folha de S.Paulo. Os poucos que li sempre avaliei positivamente.

Hoje, o Correio Braziliense publicou uma entrevista com Gleiser, que veio a Brasília para ministrar, amanhã, a partir das 9h, a Aula da Inquietação, no Teatro de Arena da Universidade de Brasília. A Aula da Inquietação é um evento que integra a programação de recepção aos alunos no início do semestre letivo. (No meu tempo de aluno da UnB, não havia essas afabilidades...) Como a versão eletrônica do texto está disponível apenas para os assinantes do jornal, selecionei três trechos da entrevista, nos quais Gleiser aborda as relações entre a herança genética e o processo de socialização e endoculturação, as potencialidades e os limites da ciência, o pensamento totalizante:


Nós somos produto de nossa história. Não há como evitar sermos uma combinação de nossos genes com a nossa história. […] eu também sou produto de um passado, […] minhas escolhas profissionais e minha carreira também são fruto das experiências vividas por mim.

… eu acredito que a ciência não pode explicar tudo. O que não quer dizer que eu acredite que existam fenômenos sobrenaturais ou coisas desse tipo. O que todas as pessoas precisam saber é que a ciência é uma construção humana, é uma criação nossa, por isso ela explica o mundo da melhor maneira que a gente pode. Isso significa que, como somos criaturas limitadas, as nossas explicações do mundo também são limitadas. A ciência é uma narrativa, algo que criamos para entender o mundo em que vivemos. Ela reflete a humanidade nas suas maiores criatividades e também nas suas maiores limitações.

Essa ideia de uma teoria final, que seja uma explicação universal, é uma noção que depende muito da ideia de perfeição e simetria. De que, por trás das imperfeições e das variações do mundo, existe uma regularidade, um padrão. Só que, quando vamos olhando para o mundo, fazendo experimentos, a gente descobre que não é bem assim. Por que existe matéria? Por que existem galáxias? Por que existe a vida? Por que existe a vida complexa? Todos esses processos, que chamamos de formação de estruturas materiais – como nós mesmos, que somos a estrutura material mais fascinante que existe, já que somos um bando de moléculas com capacidade de pensar –, dependem de imperfeições, de assimetrias. A natureza cria por meio de suas imperfeições. Eu acho que esta é uma das lições mais importantes a serem aprendidas. Que não é na simetria, na perfeição, que nós vamos encontrar a verdade, mas, sim, focando nas diferenças que desvendaremos os mecanismos criativos da natureza.

[GLEISER, Marcelo. “A natureza é imperfeita”. Correio Braziliense, Brasília, 22 mar. 2010. Ciência, p. 20.]

3 comentários:

  1. Rodrigo Cássio 1 de abril de 2010 18:20

    Fabiano,
    eu enviei um e-mail pra você, ao endereço dispersoesdeliriosedivagacoes@gmail.com Como nem sempre usamos, de fato, estes e-mails que abrimos para os blogs, deixo também este recado. Se quiser que eu encaminhe o e-mail que enviei para um outro endereço, por gentileza, avise-me: rodcassio@hotmail.com
    Um abraço.

  1. Camila S. 3 de abril de 2010 01:13

    Realmente, muito interessantes as palavras de Gleiser. Também acompanhava a coluna dele na Folha quando assinava jornal. Definitivamente, uma mente brilhante.

  1. Fabiano Camilo 4 de abril de 2010 23:46

    Camila,

    o que mais me agradou foi o fato de que as palavras acima, que parecem palavras de um antropólogo, filósofo, historiador ou sociólogo, foram ditas por um cientista, um físico. Poucos dias antes, na mesma “Folha de S.Paulo” onde Gleiser escreve, foi publicada uma entrevista com uma cientista que defende a tese da determinação biológica das diferenças entre homens e mulheres. As palavras de Gleiser vão justamente na contramão desse discurso.

    Obrigado pela visita. Você foi a última comentarista do blog neste endereço. A partir de agora, nos vemos no novo lar do “Dispersões, delírios e divagações”, onde tenho o prazer de tê-la como vizinha de condomínio.

    Um abraço!