Arruda, Paulo Octávio, Wilson Lima… E depois?

Estou em um ritmo de estudos intenso, que não está me permitindo acompanhar com a atenção que eu gostaria os acontecimentos políticos em curso no Distrito Federal. Hoje apenas consegui ler a excelente reportagem de Leandro Fortes sobre Paulo Octávio – “Pandora não terminou” –, que informa que o ex-vice-governador do DF recebeu propina de empresas beneficiadas com a aprovação do novo Plano Diretor de Ordenamento Territorial do Distrito Federal - PDOT, instituído pela Lei Complementar n. 803/09, contra a qual o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios ajuizou uma Ação Direta de Inconstitucionalidade, em dezembro do ano passado.

Paulo Octávio resistiu, mas não conseguiu se manter no cargo de governador interino. Se um dos motivos pelos quais se esforçou para se conservar no poder foi a preservação do novo PDOT, ele não deve se preocupar, porque
Wilson Lima, o atual governador interino, sempre se mostrou solícito em relação aos promotores da especulação imobiliária no DF:


… No primeiro mandato [como deputado distrital], foi o que mais apresentou projetos mudando a destinação de áreas. E o Ministério Público, na época, denunciou que empresários e políticos se beneficiavam dessas mudanças com a supervalorização de terrenos. Wilson Lima também foi relator do Plano Diretor do Gama, em 2006. O parlamentar manteve a mesma postura mudando destinação de áreas para postos de gasolina.


Eu me perguntava por que Joaquim Roriz permanecia em um silêncio sepulcral desde o início da crise política, no final do ano passado. Na terça-feira, ele se ergueu da tumba. Hoje, mantive a televisão ligada durante o Jornal Nacional, somente para ver os
filmes do Partido Social Cristão, estrelados por Roriz. A hipocrisia e o impudor de parcela dos políticos brasileiros efetivamente não possui limites. Nos filmes, Roriz comenta os atuais acontecimentos como se não tivesse nenhuma relação com nada do que está acontecendo: como se José Roberto Arruda não fosse uma criação sua; como se Paulo Octávio não tivesse sido seu aliado; como se todos os deputados distritais envolvidos no esquema de corrupção não o tivessem apoiado durante seus mandatos como governador; como se os colaboradores de Arruda que atualmente se encontram detidos na Penitenciária da Papuda não tivessem sido também seus colaboradores.

E agora? Roriz lidera as pesquisas de intenções de votos. Parece surreal, mas é a realidade. O eleitorado de Roriz, ou melhor, o eleitorado de todo político paternalista, pode ser classificado em quatro grupos. O primeiro grupo é composto por eleitores que votam em Roriz por ingenuidade, porque acreditam em suas boas intenções. São os eleitores que o consideram um pai. O segundo grupo é constituído pelos eleitores que votam em Roriz na expectativa de obter uma recompensa. Para esses eleitores, o voto é uma dádiva que concedem ao político para obrigá-lo a lhes ofertar, caso seja eleito, uma contraprestação. O terceiro grupo é formado por eleitores que votam em Roriz porque jamais votariam em um candidato de esquerda. O quarto grupo é integrado pelos eleitores que, embora convencidos de que Roriz seja corrupto, votam nele por reputá-lo um bom administrador.

Quando as suspeitas contra Arruda vieram a público, eu temi que o resultado das investigações da Polícia Federal e do Ministério Público pudessem não conduzir necessariamente a um resultado favorável à sociedade do DF, porque a saída de cena de Arruda poderia conduzir à entrada triunfante de Roriz no espetáculo. Ontem, ele retornou à cena, decidido a ser de novo o protagonista.
Minha esperança é que as investigações da Polícia Federal e do Ministério Público não demorem a enfocar os acontecimentos dos dois governos anteriores, ambos de Joaquim Roriz, a tempo de que a máscara do ex-governador, que renunciou ao cargo de senador para não ser cassado, rache antes do início das eleições.


PS:
Dois colaboradores de Roriz, Benjamim Roriz, Secretário de Governo, e Bauer Ferreira Barbosa, Subsecretário de Apoio Operacional, foram condenados por improbidade administrativa, em decisão unânime dos membros da 6ª Turma Cível do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios. Eles devem restituir ao erário cerca de R$ 7 milhões.