Para começar a semana: “A fronteira da alvorada”

La frontière de l'aube

Tenho a impressão de que as relações amorosas, em suas diversas formas de manifestação, são uma tônica do cinema contemporâneo. O amor é o tema de dois belos filmes franceses recentes, que, a despeito das especificidades formais que os separam, podem ser aproximados: Canções de amor (2007), de Christophe Honoré, e A fronteira da alvorada (2008), de Philippe Garrel. O crítico Eduardo Valente identificou, com propriedade, uma semelhança entre as histórias narradas em ambas as obras:


[A fronteira da alvorada] é um filme que nos lembra [...] curiosamente o Canções de Amor, de Christophe Honoré, onde um forte trauma também separava o filme em duas metades, com o personagem de Louis Garrel precisando redescobrir formas de lidar (ou não) com a perda e com as expectativas dos outros (e as suas mesmas), com o seu comportamento a partir desta perda.

[VALENTE, Eduardo. “Dia 10: 3 filmes, 3 mundos, 1 competição”. Cinética.]


Sem embargo, há outra similitude, menos evidente, entre a obra de Honoré e a de Garrel, que me parece mais importante. Os dois filmes defendem a tese de que não há lugar, nas sociedades ocidentais contemporâneas, para quem ama em demasia. O destino de Julie (Ludivine Sagnier), a mulher de Ismaël (Louis Garrel) em Canções de amor, e o destino de Carole (Laura Smet), a amante de François (Louis Garrel) em A fronteira da alvorada, são idênticos: a morte.* Conquanto no mundo ocidental contemporâneo o amor possa se manifestar de modos variados, parece existir um nível de experiência amorosa interdito, que, se transposto, conduz inexoravelmente ao fracasso de uma relação, quando não a um final trágico (a desrazão, a morte ou a desrazão seguida da morte).

A principal diferença entre as histórias de Canções de amor e de A fronteira da alvorada reside no destino dos seus protagonistas, nas maneiras distintas mediante as quais Ismaël e François enfrentam a dor da perda da mulher amada e tentam prosseguir suas vidas. Tanto no filme de Garrel como no de Honoré, a perda traumática dos protagonistas inflexiona as histórias, conduzindo-as a rumos imprevistos, mas cujos sentidos terminam sendo divergentes. Apesar de não desejar amar de novo, Ismaël redescobre o amor. Embora tente amar novamente, François não consegue.

Se o caminho percorrido por Canções de amor
é a contemporaneidade – a obra se propõe a representar a diversidade de possibilidades de vivência do amor hoje –, o caminho trilhado por A fronteira da alvorada parece ser intemporal, ou melhor, configura-se como uma contemporaneidade indefinida. Não importa se a lápide de Carole informa que ela morreu em 2007, no campo sobrepõem-se signos que tornam imprecisa a apreensão do tempo em que transcorre a ação – 2007 ou 1967? –, intensificando o efeito de desorientação experimentado pelo espectador, impossibilitado de descobrir se, após a morte da amada, François passou a conviver com um fantasma ou enlouqueceu.

Na alvorada, a escuridão não se retirou por completo, o mundo permanece parcialmente nas trevas, e as formas dos seres e das coisas persistem vagas, indiscerníveis. Se há um limite, uma fronteira, para a experiência do amor, esse limite, ao ser ultrapassado, pode situar o indivíduo em uma terra estranha, dominada por uma alvorada perpétua, onde os seres e as coisas podem não ser o que aparentam ser.



* A morte também é o destino de Benigno (Javier Cámara), em Fale com ela (2002), de Pedro Almodóvar, por exemplo. Ele se dedicara integralmente a cuidar de Alicia (Leonor Watling), que jazia em coma em um leito de hospital. Ao ser informado da morte da mulher que amara em excesso, motivo pelo qual cometera um crime e fora condenado à prisão, ele se suicida.

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