Para começar a semana: “De veludo cotelê e jeans”

Enquanto percorria as estantes dos estreitos corredores da Biblioteca Demonstrativa de Brasília, deparei-me com um exemplar de um livro do humorista estadunidense David Sedaris, De veludo cotelê e jeans, que eu desejava ler desde que fora publicado no Brasil, há mais de três anos. A espera foi bem compensada. Fazia tempo eu que não lia um livro que me fizesse rir tanto. Em uma série de crônicas autobiográficas, Sedaris relata, com um olhar mordaz e impiedoso, tanto em relação aos outros como a si mesmo, episódios da infância, da adolescência e da vida adulta.

Na década de 1960, em um dia de um inverno excepcionalmente rigoroso na Carolina do Norte, em que as aulas tinham sido suspensas, ele e as irmãs foram postos para fora de casa pela mãe, que, indisposta e impaciente, queria ficar sozinha. Ao retornar horas depois, quando começava a escurecer, as crianças encontraram as portas e as janelas todas trancadas. Chamaram pela mãe, mas ela, insensível aos apelos dos filhos, não as deixou entrar. Como não sabiam o número de telefone do trabalho do pai, não podiam telefonar para ele para pedir ajuda. Também não podiam simplesmente aguardar pelo seu retorno, porque, devido ao mau humor da esposa, ele poderia levar dias para voltar para casa. Abençoado com uma imaginação diabólica, David rapidamente bolou um plano:


“Um de nós podia ser atropelado”, disse eu. “Assim os dois iam aprender.” Imaginei Gretchen com a vida por um fio, enquanto meus pais andavam de um lado para outro pelos corredores do Rex Hospital, arrependidos do seu descuido. Era de fato a solução perfeita. Com Gretchen fora do caminho, nós, os restantes, ficaríamos mais valorizados, e ainda teríamos um pouco mais de espaço para viver. “Gretchen, vá se deitar no meio da rua.”

“Manda a Amy ir”, disse ela.

Amy, por sua vez, passou a bola para Tiffany, que era a mais nova e não tinha uma idéia clara da morte. “É igual a ir dormir”, dissemos a ela. “Só que você vai para uma cama com dossel.”

Coitadinha da Tiffany. Ela aceitava fazer qualquer coisa em troca de um pouco de afeto. Bastava chamá-la de Tiff que você conseguia qualquer coisa dela: o dinheiro que ela ganhava para a semana, seu jantar, todo o conteúdo da sua cesta de ovos de Páscoa. Sua ansiedade de agradar era absoluta e declarada. Quando lhe pedimos que se deitasse no meio da rua, a única pergunta que ela fez foi: “Onde?”.

Escolhemos um trecho plano e tranqüilo entre duas ladeiras, um lugar onde era quase obrigatório os motoristas derraparem e perderem o controle do carro. Ela assumiu sua posição, uma garotinha de seis anos com seu casaco cor de manteiga, e nós todos ficamos reunidos na calçada para assistir. O primeiro carro que apareceu foi o de um vizinho, [...] que tinha envolvido os pneus em correntes e conseguiu frear a mais ou menos um metro do corpo da nossa irmã. “É uma pessoa?”, perguntou ele.

“Mais ou menos”, respondeu Lisa.


[SEDARIS, David. “Deixa nevar”. In: _____. De veludo cotelê e jeans: crônicas autobiográficas. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. p. 21.]