segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Para começar a (última) semana (de 2009): uma citação de Gilles Deleuze

... cada vez mais fui sensível a uma distinção possível entre o devir e a história. Nietzsche dizia que nada de importante se faz sem uma “densa nuvem não histórica”. Não é uma oposição entre o eterno e o histórico, nem entre a contemplação e a ação: Nietzsche fala do que se faz, do acontecimento mesmo ou do devir. O que a história capta do acontecimento é sua efetuação em estados de coisa, mas o acontecimento em seu devir escapa à história. A história não é a experimentação, ela é apenas o conjunto das condições quase negativas que possibilitam a experimentação de algo que escapa à história. Sem a história, a experimentação permaneceria indeterminada, incondicionada, mas a experimentação não é histórica. Num grande livro de filosofia, Clio, Péguy explicava que há duas maneiras de considerar o acontecimento, uma consiste em passar ao longo do acontecimento, recolher dele sua efetuação na história, o condicionamento e o apodrecimento na história, mas outra consiste em remontar o acontecimento, em instalar-se nele com num devir, em nele rejuvenescer e envelhecer a um só tempo, em passar por todos os seus componentes e singularidades. O devir não é história; a história designa somente o conjunto das condições, por mais recentes que sejam, das quais desvia-se a fim de “devir”, isto é, para criar algo novo. É exatamente o que Nietzsche chama de o Intempestivo. Maio de 68 foi a manifestação, a irrupção de um devir em estado puro. Hoje está na moda denunciar os horrores da revolução. Nem mesmo é novidade, todo o romantismo inglês está repleto de uma reflexão sobre Cromwell muito análoga àquela que hoje se faz sobre Stálin. Diz-se que as revoluções têm um mau futuro. Mas não param de misturar duas coisas, o futuro das revoluções na história e o devir revolucionário das pessoas. Nem sequer são as mesmas pessoas nos dois casos. A única oportunidade dos homens está no devir revolucionário, o único que pode conjurar a vergonha ou responder ao intolerável.


DELEUZE, Gilles. “Controle e devir”. Entrevista concedida a Antonio Negri. In: _____.
Conversações. São Paulo: 34, 1992. p. 210-211. (Grifo meu.)

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Para começar a semana: “Réquiem”, de Anna Akhmátova

Não, não foi sob um céu estrangeiro,
nem ao abrigo de asas estrangeiras –
eu estava bem no meio de meu povo,
lá onde o meu povo infelizmente estava.

(1961)


NO LUGAR DE UM PREFÁCIO

     “Nos anos terríveis da
Iéjovshtchina, passei dezessete meses fazendo fila diante das prisões de Leningrado. Um dia, alguém me ‘reconheceu’. Aí, uma mulher de lábios lívidos que, naturalmente, jamais ouvira falar meu nome, saiu daquele torpor em que sempre ficávamos e, falando pertinho de meu ouvido (ali todas nós só falávamos sussurrando), me perguntou:

     – E isso, a senhora pode descrever?

     E eu respondi:

     – Posso.

     Aí, uma coisa parecida com um sorriso surgiu naquilo que, um dia, tinha sido o seu rosto.”

(Leningrado, 1º de abril de 1957)


DEDICATÓRIA


Diante dessa dor, as montanhas se inclinam
e o grande rio deixa de correr.
Mas os muros das prisões são poderosos
e, por trás deles, estão as “tocas dos condenados”
e a saudade mortal.

É para os outros que a brisa fresca sopra,
é para os outros que o pôr-do-sol se enternece –
mas nada sabemos disso: somos as que, por toda parte,
só ouvem o odioso ranger das chaves
e o passo pesado dos soldados.
Levantávamo-nos como para o culto da madrugada,
arrastávamo-nos por esta capital selvagem,
para nos encontrarmos lá, mais inertes do que os mortos,
o sol cada vez mais baixo, o Neva mais nevoento,
enquanto a esperança cantava bem ao longe...
O veredicto... e as lágrimas de súbito brotam.
E ei-la separada do mundo inteiro
como se de seu coração a vida se arrancasse,
como se com um soco a derrubassem.
E, no entanto, ela ainda anda... cambaleando... sozinha...
Onde estão, agora, as companheiras de infortúnio
desses meus dois anos de terror?
O que estarão vendo, agora, na neblina siberiana?
A elas eu mando a minha última saudação.

(Março de 1940)


PRÓLOGO


Houve um tempo em que só sorriam
os mortos, felizes em seu repouso.
E como um apêndice supérfluo, balançava
Leningrado, pendurada às suas prisões.
E quando, enlouquecidos pelo sofrimento,
os regimentos de condenados iam embora,
para eles as locomotivas cantavam
sua aguda canção de despedida.
As estrelas da morte pairavam sobre nós
e a Rússia inocente torcia-se de dor
sob as botas ensangüentadas
e os pneus das Marias Pretas.


I

Levaram-te embora ao amanhecer.
Atrás de ti, como quem acompanha um carro fúnebre, eu segui.
No quarto às escuras, as crianças soluçavam
e a vela gotejava diante do ícone.
Teus lábios estavam gelados como uma medalhinha.
Do suor mortal em tua fronte nunca me esquecerei.
Como as viúvas dos Striéltsi, eu também
irei gritar diante das torres do Kremlim.

(1935)


II

Lento flui o Don silencioso.
Amarela a lua entra em casa,

entra com seu boné enviesado,
a lua amarela, e depara com uma sombra.

Esta mulher está doente,
esta mulher está sozinha.

O marido morto, o filho preso.
Digam por mim uma oração.


III

Não, esta não sou eu, é uma outra qualquer que sofre.
Não posso suportar o que aconteceu,
deixem que uma negra mortalha o cubra
e que levem embora os lampiões de rua…
Anoitece…

(1940)


IV

Se te tivessem mostrado – a ti, a zombeteira,
a estimada de todos os amigos,
a alegre pecadora de Tsárskoie Seló –
o que a tua vida te reservava:
como, tricentésima da fila, com teu pacotinho na mão,
ficarias diante da Kriesty,
e tuas lágrimas escaldantes
derreteriam o gelo do Ano Novo…
Lá longe, o álamo no pátio da prisão balouça.
Não se ouve um só som – lá, quantas vidas
inocentes estão acabando…


V

Há dezessete meses choro,
chamando-te de volta para casa.
Já me atirei aos pés de teu carrasco.
És meu filho e meu terror.
As coisas se confundem para sempre
e não consigo mais distinguir, agora,
quem a fera, quem o homem,
e quanto terei de esperar até a tua execução.
Só o que me resta são flores empoeiradas
e o tilintar do turíbulo e pegadas
que levam de lugar nenhum a parte alguma.
E bem nos olhos me olha,
com a ameaça de uma morte próxima,
uma estrela enorme.

(1939)


VI

As semanas leves vão-se embora.
O que aconteceu eu não entendo.
Como a ti, meu filho, na prisão,
vieram contemplar as noites brancas,
e ainda te contemplam,
com seus ardentes olhos de falcão,
e da tua alta cruz
e de tua morte falam.

(1939)


VII
O VEREDICTO

E a pétrea palavra caiu
sobre o meu peito ainda vivo.
Pouco importa: estava pronta.
Dou um jeito de agüentar.

Hoje, tenho muito o que fazer:
devo matar a memória até o fim.
Minha alma vai ter de virar pedra.
Terei de reaprender a viver.

Senão… o ardente ruído do verão
é como uma festa debaixo da janela.
Há muito tempo eu esperava
por este dia brilhante, esta casa vazia.

(22 de junho de 1939, Casa Fontanka)


VIII
À MORTE

De qualquer jeito virás – então, por que não vens já?
Estou te esperando: tudo para mim ficou difícil.
Apaguei a luz, abri a porta
para ti, tão simples, tão maravilhosa.
Para isso, toma o aspecto que quiseres:
entra como um obus envenenado,
ou sorrateira qual hábil bandido,
ou como as emanações do tifo,
ou sob a forma daquela fábula que tu mesma inventaste
e que todos já conhecem até a náusea –
na qual torno a ver o topo do quepe azul e,
por trás dele, o zelador pálido de medo.
Para mim dá na mesma. O Ienissêi corre turbulento.
A Estrela Polar brilha no céu.
O brilho azul dos olhos que eu amo
é recoberto por esse terror.

(19 de agosto de 1939, Casa Fontanka)


IX

Já a loucura com as suas asas
envolveu-me toda a alma,
me encharcando em seu licor,
levando-me ao vale das sombras.

Ouvindo o meu delírio
como se fosse o de outra,
está certo, sei que devo
admitir que ela venceu.

Eu sei que não deixará
que eu leve nada comigo
(por mais que eu lhe peça,
por mais que eu lhe implore):

nem os olhos do meu filho
que a dor petrificou,
nem o dia do terror,
nem o dia da visita,

nem o frio de suas mãos,
nem o tremular dos álamos,
nem o som que vem de longe,
últimos sons de consolo.

(4 de maio de 1940, Casa Fontanka)


X
A CRUCIFICAÇÃO

Não chores por mim, Mãe,
no túmulo estou

1

O coro dos anjos glorificou esta hora terrível
e os céus partiram-se em abismos de fogo.
Ele perguntou ao Pai: “Por que me abandonaste?”.
Mas à Mãe disse: “Oh, não chores por mim...”

(1940, Casa Fontanka)

2

Madalena batia no peito e chorava.
O discípulo favorito convertera-se em pedra.
Mas para lá, onde a Mãe, em silêncio, se erguia,
ninguém ousava erguer os olhos e olhar.

(1943, Tashkent)


EPÍLOGO

1

Aprendi como os rostos se desfazem,
como o pavor dardeja sob as pálpebras,
como a dor sulca a tabuinha do rosto
com seus rugosos caracteres cuneiformes,
como os cachos negros ou cinzentos
de um dia para o outro se pranteiam,
como em lábios submissos o sorriso fenece
e, com um risinho seco, como se treme de medo.
E não é só por mim que rezo,
mas por todas as que estiveram lá comigo,
no frio selvagem, no tórrido mês de julho,
em frente à muralha rubra e cega.

2

Uma vez mais volta o Dia da Lembrança.
Vejo, ouço, sinto por vocês todas:

aquela que mal conseguiu chegar ao fim,
aquela que já não vive mais em sua terra,

aquela que, balançando a bonita cabeça,
disse: “Volto aqui como se fosse o meu lar”.

Gostaria de poder chamá-las, a todas, por seus nomes,
mas levaram a lista embora, e onde posso me informar?

Para elas teci uma ampla mortalha
com suas pobres palavras que consegui escutar.

Sempre e em toda parte hei de lembrar-me delas:
delas não me esquecerei, nem numa nova miséria.

E se tamparem a minha boca fatigada,
através da qual jorra um milhão de gritos,

que seja a vez de todas elas me lembrarem,
na véspera do meu Dia da Lembrança.

E se, neste país, um dia decidirem
à minha memória erguer um monumento,

eu concordarei com essa honraria,
desde que não me façam essa estátua

nem à beira do mar, onde nasci –
meus últimos laços com o mar já se romperam –,

nem no jardim do Tsar, junto ao tronco consagrado,
onde uma sombra inconsolável ainda procura por mim,

mas aqui, onde fiquei de pé trezentas horas
sem que os portões para mim se destrancassem;

porque, mesmo na morte abençoada, tenho medo
de esquecer o som surdo das Marias Pretas,

de esquecer como os odiosos portões estalavam
e como a velha gemia qual animal ferido.

Das pálpebras imóveis, das pálpebras de bronze,
deixem que corram lágrimas qual neve fundida,

deixem que as pombas da prisão arrulhem na distância
e que os barcos deslizem em silêncio sobre o Neva.

(Março de 1940)


AKHMÁTOVA, Anna. “Réquiem: um ciclo de poemas (1935-1940)”. In: _____. Poesia (1912-1964)
. Seleção, tradução e notas: Lauro Machado Coelho. Porto Alegre: L&PM, 1991. p. 111-120.


Retrato de Anna Akhmátova

Natan Altman, Retrato de Anna Akhmátova, a poetisa (1914)

sábado, 19 de dezembro de 2009

Cinema visionário, hoje

Pequena reflexão motivada por Avatar, de James Cameron, filme que não vi e não gostei: no passado, visionários eram cineastas como Luis Buñuel (1900-1983), Federico Fellini (1920-1993); hoje, visionários são cineastas como James Cameron, Peter Jackson, os irmãos Andy e Lana Wachowski, Zack Snyder.

Cartazes de Watchmen apresentaram o filme como uma obra “do visionário diretor de 300”, Zack Snyder! Indício da inexorável decadência do cinema, no juízo de críticos apocalípticos. Não acredito em sinais escatológicos, porém. Não compartilho também da crença infundada no evolucionismo às avessas, que defende que o passado sempre era melhor do que o presente. Quem se lamenta porque Buñuel e Fellini estão mortos, não consegue olhar ao redor e ver tudo aquilo que o cinema contemporâneo efetivamente tem a oferecer. E o que o cinema contemporâneo tem a oferecer, a quem estiver disposto a apreciá-lo, não é apenas James Cameron, Peter Jackson, os irmãos Andy e Lana Wachowski, Zack Snyder…

Portanto, relevante é tentar compreender a mudança de significado na ideia de visionariedade. O visionário, aquele que cria mundos cujas imagens transcendem o presente, não é mais um cineasta que nos convida a contestar as representações do imaginário dominante e a imaginar outros mundos possíveis; o visionário é tão-somente um cineasta que, a cada filme, supera a si mesmo e a seus pares na arte (técnica) dos efeitos especiais, que, de meio para a realização de um filme, se convertem no próprio fim de um filme.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Para começar a semana: “Pela noite”

Caio Fernando AbreuCaio Fernando Abreu (1948-1996)


eu também sinto medo, e haverá a morte um dia. A vida é apenas uma ponte entre dois nadas e tenho pressa. De repente sentiu-se sufocado enquanto saíam por entre as mesas barulhentas. Uma sufocação semelhante à daquelas manhãs de fim de semana em que, involuntário, acordava cedo demais apesar do esforço para permanecer na cama até mais tarde, para que o dia parecesse mais curto e não precisasse bater-se tanto pelo apartamento vazio, sem vontade de fazer coisa alguma a não ser olhar pelas janelas. Espiava então pela janela o movimento das ruas, os verdes lá fora, com vontade de sentar-se num banco de praça, comendo maçãs ao sol. Não saberia por que justamente maçãs, mas sem dúvida maçãs, maçãs vermelhas daquelas argentinas, embrulhadas em papel fininho quase roxo. Não havia nenhuma praça próxima. Quase nunca havia sequer sol. Nem verdes, lá fora. Ainda que houvesse, que pudesse talvez comprar maçãs na venda da esquina e procurar uma praça, em algum lugar devia haver uma, sentado ali na poltrona alta de couro que, só percebera tempos depois, arrastara para junto da janela exatamente com esse fim, olhar lá fora, permanecia parado, atravessando as manhãs sem sequer fumar ou falar sozinho. Cortava unhas, às vezes. Das mãos, dos pés, detendo-se para pensar que – seria bom. E vinha depois também, insinuada aos poucos no meio da manhã, uma vontade de que alguém telefonasse, tocasse a campainha, chamasse lá embaixo, a princípio vaga, mas cada vez mais nítida, até chegar quase a ferir, feito uma dor, agulha, brasa. Nada acontecia. Aquela como uma vontade de ser feliz, de haver alguma ordem ou estar noutro lugar onde fosse possível sentar ao sol comendo maçãs, deixava também de ser como um estar-à-beira-de-qualquer-coisa-boa. Campainha e telefone mudos, a manhã a transformar-se em tarde, emergia venenosa a sufocação, vontade de fugir, de não ser quem era nem ter vivido nenhuma das coisas que vivera. Todo um passado, essa coisa que chamam de passado, desembocava ali naquele momento, em pleno centro das manhãs esbranquiçadas de silêncio.

ABREU, Caio Fernando. “Pela noite”. In: _____. Caio 3D: o essencial da década de 1990. Rio de Janeiro: Agir, 2006. p. 98.


“Ele escreveu para mim e sobre mim”, disse a poeta russa Anna Akhmatova ao historiador das ideias e filósofo Isaiah Berlin, durante uma conversa em Oxford, em 1965. Ela se referia a Kafka.


Todos os leitores temos escritores ou escritos com os quais estabelecemos uma identificação profunda. Sinceramente, não aprecio todos os textos de Caio Fernando Abreu, mas aqueles que aprecio, com os quais me identifico, atravessam meu íntimo, como se ele tivesse escrito para mim. Um desses textos é a arrebatadora novela “Pela noite”, que narra o reencontro de dois homens de temperamentos muito diferentes e com trajetórias de vida distintas, que se conheceram quando crianças, no interior do Rio Grande do Sul. Por sugestão de um deles, ao longo de uma noite em que erram juntos por São Paulo, ambos se entregam a um jogo de máscaras, chamando um ao outro por pseudônimos, Pérsio e Santiago, em uma tentativa de, fingindo ser outros, não terem que suportar, por algumas horas ao menos, o peso do passado e o peso de tudo aquilo que não foram e não tiveram. Os temas mais caros às ficções de Caio emergem nessa pungente novela: a solidão, ou melhor, a terrível forma moderna da solidão, a solidão do indivíduo perdido na multidão; a memória e a incerteza do futuro; o desejo de amar e de ser compreendido e amado; a busca desesperada de um sentido para a vida; os sentimentos de desamparo, angústia e melancolia.


PS: “Pela noite” é uma das novelas que formam o tríptico Triângulo das águas, publicado originalmente pela Nova Fronteira em 1983. Quando faleceu, em fevereiro de 1996, Caio trabalhava em uma coletânea de contos, que pretendia intitular de Estranhos estrangeiros. Dos contos que integrariam o livro, estavam concluídos apenas “Ao simulacro da imagerie” e o onírico e belíssimo “Bem longe de Marienbad”. O conto “London, London”, publicado em 1977 na coletânea
Pedras de Calcutá, também deveria fazer parte da obra em preparação. “Ao simulacro da imagerie”, “Bem longe de Marienbad”, “London, London” e uma versão de “Pela noite” contendo algumas alterações foram então reunidos no livro Estranhos estrangeiros, publicado pela Companhia das Letras em 1996. Recentemente, a Agir republicou Triângulo das águas, com a versão de 1991 de “Pela noite”, preparada por Caio para a segunda edição do livro, lançada pela Siciliano. A versão de 1996 está disponível em Caio 3D: o essencial da década de 1990, juntamente com os demais textos de Estranhos estrangeiros.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Socialismo e ecologia, segundo Michael Löwy

Para enfrentar as disputas relativas à mudança climática – e à crise ecológica em geral, das quais essas são a expressão mais ameaçadora – é preciso uma mudança radical e estrutural, que atinja os fundamentos do sistema capitalista: uma transformação não só das relações de produção (a propriedade privada dos meios), mas também das forças produtivas. Isso envolve, antes de mais nada, uma verdadeira revolução do sistema energético e de transportes e dos modos de consumo atuais, baseados na dilapidação e no consumo ostentatório, induzidos pela publicidade. Em suma, trata-se de uma mudança do paradigma da civilização, e da transformação rumo a uma nova sociedade, em que a produção será democraticamente planejada pela população; ou seja, em que as grandes decisões sobre as prioridades da produção e do consumo não serão mais decididas por um punhado de exploradores, ou pelas forças cegas do mercado, nem pela oligarquia de burocratas e especialistas, mas pelos trabalhadores e consumidores. Em síntese, pela população, após um debate democrático e contraditório entre diferentes propostas. É o que designamos pelo termo ecossocialismo.

O que é o ecossocialismo? Trata-se de uma corrente de pensamento e de ação ecológica que toma para si as conquistas fundamentais do socialismo – ao mesmo tempo livrando-se de suas escórias produtivistas. Para os ecossocialistas, as lógicas do mercado e do lucro assim como a do autoritarismo burocrático inflamado, o “socialismo real”, são incompatíveis com as exigências de salvaguarda do ambiente natural. Ao mesmo tempo em que criticam a ideologia das correntes dominantes do movimento operário, sabem que os trabalhadores e suas organizações constituem uma força fundamental para qualquer transformação radical do sistema e para a constituição de uma nova sociedade, socialista e ecológica.

James O’Connor define como ecossocialistas as teorias e os movimentos que aspiram subordinar o valor de troca ao valor de uso, organizando a produção em função das necessidades sociais e das exigências de proteção do meio ambiente. Seu objetivo, um socialismo ecológico, seria uma sociedade ecologicamente racional, baseada no controle democrático, na igualdade social e na predominância do valor de uso. Eu acrescentaria que uma sociedade como essa supõe a propriedade coletiva dos meios de produção, um planejamento democrático que permita a todos definir os objetivos da produção e os investimentos, e uma nova estrutura tecnológica das forças produtivas; o ecossocialismo seria um sistema baseado não só na satisfação das necessidades humanas, democraticamente determinadas, mas também na gestão racional coletiva das trocas de matérias com o meio ambiente, respeitando os ecossistemas.

O ecossocialismo desenvolve, então, uma crítica da tese da “neutralidade” das forças produtivas que predominava na esquerda no século XX, em suas duas vertentes, socialdemocrata e comunista soviética. Essa crítica poderia se inspirar, a meu ver, em observações de Karl Marx sobre a Comuna de Paris: os trabalhadores não po-dem se apropriar do aparelho do Estado capitalista e colocá-lo para funcionar a seu serviço. Eles devem “rompê-lo” e substituí-lo por um outro de natureza totalmente distinta, uma forma não estatal e democrática de poder político.

O mesmo vale, mutatis mutandis, para o aparelho produtivo: por sua natureza e sua estrutura, ele não é neutro, mas está a serviço da acumulação do capital e da expansão ilimitada do mercado. Ele está em contradição com os imperativos de salvaguarda do meio ambiente e de saúde da força de trabalho. É preciso, então, “revolucioná-lo”, transformando-o radicalmente. Isso pode significar, para alguns ramos de produção – as centrais nucleares, por exemplo – “rompê-los”. Em todo caso, as próprias forças produtivas devem ser profundamente modificadas. Com certeza, inúmeras conquistas científicas e tecnológicas do passado são preciosas, mas o conjunto do sistema produtivo deve ser colocado em questão do ponto de vista de sua compatibilidade com as exigências vitais de preservação do equilíbrio ecológico. Isso significa, a princípio, uma revolução energética: a substituição das energias não renováveis e responsáveis pela poluição, pelo envenenamento do meio ambiente e pelo aquecimento do planeta – carvão, petróleo e nuclear – por energias “naturais”, “limpas” e renováveis, como água, vento, sol, além da redução drástica do consumo de energia (e, portanto, das emissões de CO2).

Mas é o conjunto do modo de produção e de consumo – baseado, por exemplo, no veículo individual e em outros produtos desse tipo – que deve ser transformado, simultaneamente à supressão das relações de produção capitalistas e ao início de uma transição ao socialismo.

Entendo por socialismo a ideia originária, comum a Marx e aos socialistas libertários, que não tem muito a ver com os pretensos regimes “socialistas” que ruíram a partir de 1989: trata-se de uma “utopia concreta” – para utilizar o conceito de Ernst Bloch – de uma sociedade sem classes e sem dominação, em que os principais meios de produção pertencem à coletividade, e as grandes decisões sobre os investimentos, a produção e a distribuição não são abandonadas às leis cegas do mercado, a uma elite de proprietários, ou a um bando burocrático, mas tomadas, depois de um amplo debate democrático e pluralista por toda a população. O que está em jogo mundialmente nesse processo de transformação radical das relações dos seres humanos entre si e com a natureza é uma mudança de paradigma civilizacional, concernente não só ao aparelho produtivo e aos hábitos de consumo, mas também ao habitat, à cultura, aos valores, ao estilo de vida.

LÖWY, Michael. “Os piores cenários possíveis”. Le Monde Diplomatique. São Paulo, ano 3, n. 29, dez. 2009, p. 7.

sábado, 12 de dezembro de 2009

As crises do petróleo

Hoje, na aula de recursos humanos do curso preparatório para o concurso do Banco Central, aprendi que a primeira crise mundial do petróleo ocorreu em 1929, e a segunda, em 1990.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Rio de Janeiro e Brasília: a capital de ontem versus a capital de hoje

A atual crise política do Governo do Distrito Federal - GDF propiciou aos adversários da condição de Brasília como capital federal uma excelente oportunidade para atacá-la:


… Brasília é […] a capital da impunidade, a cidade que propicia aos governantes a sensação de viver não numa terra sem lei, mas acima dela. Isso, é óbvio, tem relação com seu isolamento geográfico, com a redoma que preserva o poder do contato e da pressão popular.

[BARROS E SILVA, Fernando de.
“O teatro exemplar de Arruda”. Folha de S.Paulo, 8 dez. 2009. Opinião.]


É antiga a tese de que Brasília favorece extraordinariamente a corrupção e a impunidade. Roberto Campos (1917-2001), por exemplo, a reiterava com insistência. Contudo, a despeito de sua antiguidade, que lhe confere uma aparência de plausibilidade, os novos defensores da tese, como os antigos, continuam a repeti-la sem jamais empreender um esforço para comprovar sua veracidade factual. Barros e Silva apresenta as seguintes hipóteses, sem tentar demonstrá-las: (1) o principal fator que concorre para que em Brasília a corrupção e a impunidade sejam produzidas e reproduzidas endemicamente é o isolamento geográfico da cidade; (2) o isolamento geográfico mantém os políticos afastados do contato com o povo; (3) afastados do contato com o povo, os políticos não sofrem – ou não sofrem suficientemente – pressão popular.

Na tese em discussão, o contraponto a Brasília, mesmo quando não enunciado, é sempre a cidade do Rio de Janeiro, a capital anterior. Entretanto, a bem da verdade, de acordo com as constituições republicanas, entre 1891 e 1960, o Rio nunca foi a capital do Estado brasileiro, ou melhor, a capital da União. A
Constituição de 1891 declarou o Distrito Federal a capital da União (art. 2º). Da leitura do art. 4º das Disposições Transitórias da Constituição de 1934, infere-se que a capital da União era o Distrito Federal. A Constituição de 1937 estabeleceu o Distrito Federal como a “sede do governo da República” (art. 7º). A Constituição de 1946 (art. 1º, § 2º) e a Constituição de 1967 (art. 2º) instituíram o Distrito Federal como a capital da União. Brasília somente se tornou a capital (do Estado brasileiro) com a promulgação da Constituição de 1988: “Brasília é a Capital Federal” (art. 18, § 1º).

Não obstante, a revolta contra a circunstância de o Rio não ser mais a capital pode se manifestar com violenta intensidade, conduzindo a um estado de absoluto descontrole emocional, em que desarrazoadas hipérboles são construídas:


Dentro de alguns meses, em abril de 2010, vão se completar cinquenta anos do ato de agressão mais perverso que já se cometeu, em toda a história nacional, contra uma grande cidade brasileira: a expropriação da capital do país, tomada do Rio de Janeiro e transferida para Brasília. A data vai ser motivo de festa oficial de primeira categoria, com desfile, show e missa; deveria ser um dia de luto fechado. Até abril de 1960, o Brasil tinha o que poderia haver de mais próximo, no mundo inteiro, a uma capital perfeita.

[GUZZO, J. R.
“A capital perdida”. Veja, São Paulo, n. 2.134, 14 out. 2009, p. 166. (Grifos meus.)]


A peça política atualmente encenada no palco de Brasília é uma crise regional, que se originou e se desenvolveu no âmbito do governo do DF, não no âmbito da União, não estando relacionada, por conseguinte, à condição de Brasília como capital federal. Comparativamente, seria mais grave do que as crises políticas em curso em outras unidades da federação, como a crise que assola, há meses, o Rio Grande do Sul, governado por Yeda Crusius? Os casos de corrupção que ocorreram na esfera do governo do DF desde o advento da Constituição de 1988 foram numericamente maiores e envolveram valores mais elevados do que os casos que foram registrados nos estados, bem como nos municípios mais populosos do país?

A assertiva de que Brasília favorece sobremaneira a corrupção e a impunidade porque o isolamento geográfico resguarda os políticos do contato com o povo, ao contrário do Rio de Janeiro, onde os políticos estavam em comunicação e convívio intensos e contínuos com o povo, apresenta dois problemas.*

Primeiro. Ignora que a sociedade brasileira da primeira metade do século 20 era uma sociedade diferente. O povo, o conjunto dos cidadãos, possuía representações, valores, ideias e hábitos distintos dos do povo de hoje. Portanto, não há garantias de que, caso a capital (o Distrito Federal) tivesse permanecido na cidade do Rio, o povo brasileiro contemporâneo agiria conforme agia – ou conforme se supõe que agia – o povo brasileiro entre 1889, data da proclamação da República, e 1960, data de transferência da capital para Brasília.

Segundo. Em 1975, os estados do Rio de Janeiro e da Guanabara foram fundidos, criando o novo estado do Rio de Janeiro, com a capital na cidade do Rio de Janeiro. Considerando-se que, nos últimos trinta e quatro anos, governadores, deputados e secretários do estado do Rio, bem como prefeitos, vereadores e secretários do município do Rio, supostamente estiveram, devido às características da capital fluminense, em intenso e contínuo contato com o povo, submetidos, diariamente e de forma direta, à pressão popular, seria verossímil concluir que o estado do Rio e o município do Rio são modelos de atividade legislativa, gestão governamental e moralidade administrativa, imunes – ou, ao menos, um pouco menos propensos – à corrupção, ao contrário da capital da República. Como os fatos refutam essa conclusão, os políticos (estaduais e municipais) permanecem afastados do povo na cidade do Rio, tanto quanto os políticos (federais e distritais) em Brasília, ou a pressão popular não tem sido capaz de surtir efeitos benéficos, seja no Rio, seja em Brasília.

Eu moro no Distrito Federal, mas não me importa se a capital federal é Brasília, Rio de Janeiro, Salvador, Belém ou São Luís. Não me incomodaria se uma emenda à Constituição alterasse a localização da capital do Estado brasileiro. A capital deve estar situada na cidade que ofereça as condições reputadas como ideais para o atendimento dos interesses nacionais. Talvez Brasília não seja essa cidade. Todavia, não porque, isolada no planalto central (em relação à “civilização” no Rio de Janeiro), não permita o contato dos políticos com o povo. O problema da distância entre os políticos e o povo está relacionado a outros fatores, como o esvaziamento da esfera pública, nas sociedades ocidentais contemporâneas, mas também, no caso específico do Brasil, à estrutura do sistema político, à ideia distorcida de res publica compartilhada pela maioria dos políticos, às maneiras consoante as quais parcela dos políticos age em face do povo.

A despeito de Brasília favorecer ou não a proximidade dos políticos com o povo, um fato se tornou (ainda mais) evidente nos últimos meses, como demonstraram as reações dos governos do Rio Grande do Sul, de São Paulo e do DF a manifestações populares: exceto durante as campanhas eleitorais, os políticos não querem nenhum contato com o povo;
quando o povo ameaça se aproximar, os políticos reagem com violência.



* Essa proposição não demonstrada inevitavelmente me faz imaginar o Rio de Janeiro da primeira metade do século 20 como uma Atenas moderna, onde os cidadãos se reuniam diariamente nos recintos do Palácio do Catete, do Palácio Tiradentes e do Palácio Monroe, para discutir, agonisticamente, os assuntos políticos.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Para começar a semana: “New landscapes”

Para começar a semana, algumas belas e impressionantes fotografias da série New landscapes, de Yao Lu.


Autumn mist in the mountain with winding streams (2007) Autumn mist in the mountain with winding streams (2007)


Clear cliff shrouded in floating clouds (2007)Clear cliff shrouded in floating clouds (2007)


Overlapping waves and lush trees (2007) Overlapping waves and lush trees (2007)


River Village covered with snow (2007) River Village covered with snow (2007)


Viewing the waterfall from the Pine Rocks (2007)Viewing the waterfall from the Pine Rocks (2007)


Birds and snow in the cold dusk (2008)Birds and snow in the cold dusk (2008)


Early spring on lake Dong Ting (2008)Early spring on lake Dong Ting (2008)


Mountain and straw houses in the summer (2008)Mountain and straw houses in the summer (2008)


View of autumn mountains in the distance (2008)View of Autumn Mountains in the distance (2008)

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Para começar a semana: “Desejo e perigo”, de Ang Lee

Desejo e perigo

Na Xangai ocupada pelos japoneses durante a Segunda Guerra Mundial, Wong Chia Chi, que no passado recente fora estudante universitária e atriz amadora, é uma espiã encarregada de seduzir um importante oficial chinês, Sr. Yee, membro do governo colaboracionista. Yee é um agente atento, prudente e perspicaz, mas é também um homem arrogante, vaidoso e autoritário, que não reconhece limites ao seu desejo e à sua vontade de poder. Fascinado pela beleza, sensualidade e elegância de Mak Tai Tai, a persona de Wong Chia Chi, Yee, cauteloso e dominador nos primeiros encontros, aos poucos se rende e é dominado. Semiólogo do corpo, dos gestos, da face e da voz, intérprete exímio, Yee se perde no labirinto de signos corporificado por Mak Tai Tai. Ela é uma língua cujas palavras e cujas regras de funcionamento ele desconhece, mas cuja melodia dos enunciados o encanta. Entrementes, à medida que entrega seu corpo, iludindo e dominando Yee, Wong Chia Chi não consegue reprimir as emoções e os sentimentos perigosos que passam a dominar seu espírito. Com angústia e temor, ela percebe que não é mais capaz de controlar os significados de seus próprios enunciados.

Exemplos de alheamento do mundo exterior e de revisionismo histórico

O desastre protagonizado por José Roberto Arruda faz aflorar o enorme preconceito que parte importante da imprensa tem contra o DEM — considerado “de direita”. É preciso ser muito energúmeno para afirmar que o Democratas é direitista. Mas os energúmenos estão à solta…

Reinaldo Azevedo,
“Mensalão de Arruda ou do DEM?”


1)
Reinaldo Azevedo está sinceramente surpreso com o desastre protagonizado por José Roberto Arruda?

2) À exatamente qual parte importante da imprensa, acusada de ser preconceituosa em relação ao
ARENA PFL DEM, Reinaldo Azevedo se refere?

3) Se o ARENA PFL DEM, que apoiou os governos militares, não é um partido de direita, seria o quê? Um partido de... esquerda?

4) Eu declaro, sem nenhum constrangimento: eu sou um energúmeno!


* * *


A Globo está enchendo a boca com essa chamada, “mensalão do DEM!”. É no Jornal Hoje, no Jornal nacional, Jornal da Globo e no Fantástico. Chega ser nogento!

Infelizmente a imprensa brasileira está a soldo do lulopetismo. Sinceramente não sei se esse país tem jeito.


Claudio, leitor do blog Reinaldo Azevedo, em um comentário ao post “Mensalão de Arruda ou do DEM?”

1) Desde quando a Rede Globo está a soldo do lulo-petismo?

2) Sim, Claudio, o país tem jeito. Uma das condições para que o país se ajeite é justamente o afastamente definitivo de indivíduos como José Roberto Arruda da atividade política e das funções de governo.