Alhures, na selva

Iniciei o Dispersões, delírios e divagações há menos de um ano. A despeito de minha insegurança, blogar rapidamente se converteu em uma atividade prazerosa.

Eu estava tranquilo, sossegado, quando, na semana passada, uns blogueiros um pouco perturbados, porque sendo pensadores selvagens são, evidentemente, um pouco perturbados, vieram desestabilizar minha rotina. Eles gostaram do Dispersões, delírios e divagações e gentilmente me convidaram para blogar na companhia deles. (São ou não são perturbados?)

Como eu também sou um pouco perturbado, aceitei o convite.

Com muita satisfação, informo que o Dispersões, delírios e divagações mudou de endereço, passando a integrar o aprazível* condomínio O pensador selvagem. Visite a nova residência do blog e aproveite para conhecer também todos os seus vizinhos.
 


[Simon Pais-Thomas] Steps on the roadSimon Pais-Thomas, Steps on the road (2006)


Dispersões, delírios e divagações



* Aprazível: objeto ou atividade que proporciona fruição estética e intelectual, que desperta a sensibilidade e o interesse.
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Para começar a semana: três citações de Marcelo Gleiser


Não li nenhum livro de Marcelo Gleiser. Parecem interessantes. Muito eventualmente, leio os textos que ele escreve para o caderno “Ciência”, da Folha de S.Paulo. Os poucos que li sempre avaliei positivamente.

Hoje, o Correio Braziliense publicou uma entrevista com Gleiser, que veio a Brasília para ministrar, amanhã, a partir das 9h, a Aula da Inquietação, no Teatro de Arena da Universidade de Brasília. A Aula da Inquietação é um evento que integra a programação de recepção aos alunos no início do semestre letivo. (No meu tempo de aluno da UnB, não havia essas afabilidades...) Como a versão eletrônica do texto está disponível apenas para os assinantes do jornal, selecionei três trechos da entrevista, nos quais Gleiser aborda as relações entre a herança genética e o processo de socialização e endoculturação, as potencialidades e os limites da ciência, o pensamento totalizante:


Nós somos produto de nossa história. Não há como evitar sermos uma combinação de nossos genes com a nossa história. […] eu também sou produto de um passado, […] minhas escolhas profissionais e minha carreira também são fruto das experiências vividas por mim.

… eu acredito que a ciência não pode explicar tudo. O que não quer dizer que eu acredite que existam fenômenos sobrenaturais ou coisas desse tipo. O que todas as pessoas precisam saber é que a ciência é uma construção humana, é uma criação nossa, por isso ela explica o mundo da melhor maneira que a gente pode. Isso significa que, como somos criaturas limitadas, as nossas explicações do mundo também são limitadas. A ciência é uma narrativa, algo que criamos para entender o mundo em que vivemos. Ela reflete a humanidade nas suas maiores criatividades e também nas suas maiores limitações.

Essa ideia de uma teoria final, que seja uma explicação universal, é uma noção que depende muito da ideia de perfeição e simetria. De que, por trás das imperfeições e das variações do mundo, existe uma regularidade, um padrão. Só que, quando vamos olhando para o mundo, fazendo experimentos, a gente descobre que não é bem assim. Por que existe matéria? Por que existem galáxias? Por que existe a vida? Por que existe a vida complexa? Todos esses processos, que chamamos de formação de estruturas materiais – como nós mesmos, que somos a estrutura material mais fascinante que existe, já que somos um bando de moléculas com capacidade de pensar –, dependem de imperfeições, de assimetrias. A natureza cria por meio de suas imperfeições. Eu acho que esta é uma das lições mais importantes a serem aprendidas. Que não é na simetria, na perfeição, que nós vamos encontrar a verdade, mas, sim, focando nas diferenças que desvendaremos os mecanismos criativos da natureza.

[GLEISER, Marcelo. “A natureza é imperfeita”. Correio Braziliense, Brasília, 22 mar. 2010. Ciência, p. 20.]

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“Nosso atraso político se explica perfeitamente pelo nosso sangue negro”

De acordo com o sociólogo e jornalista Ali Kamel, nós brasileiros não somos racistas.

De acordo com o senador Demóstenes Torres (DEM-GO), nós brasileiros temos uma história muito bonita de miscigenação e, no dia seguinte à abolição da escravidão, os negros eram cidadão como todos os demais cidadãos.

Eu me lembrei de uma pequena evidência do belo passado de miscigenação da sociedade brasileira; do estatuto de cidadãos dos homens negros e das mulheres negras, no final da década 1930; e da inexistência de racismo no Brasil.

Quando desembarcou no Rio de Janeiro, em 1938, a antropóloga Ruth Landes
(1908-1991), doutora em antropologia pela Universidade de Colúmbia, sob a orientação de Ruth Benedict, precisou se apresentar a altos funcionários do governo e da Polícia Federal, para provar sua identidade e a inocência de seus estudos, cujo tema era o candomblé da população negra de Salvador. Uma das altas autoridades às quais Landes se apresentou foi o Ministro das Relações Exteriores, Osvaldo Aranha (1894-1960), que, após ler a carta de apresentação que ela lhe entregara, lhe disse:


Esta carta diz que a senhora não é um desses repórteres sensacionalistas. Ótimo. O Brasil precisa ser corretamente conhecido. Especialmente a sua situação política, e, uma vez que vai estudar os negros, devo dizer-lhe que o nosso atraso político, que tornou esta ditadura necessária, se explica perfeitamente pelo nosso sangue negro. Infelizmente. Por isso, estamos tentando expurgar esse sangue, construindo uma nação para todos, “embranquecendo” a raça brasileira.

[LANDES, Ruth. A cidade das mulheres. 2. ed. rev. Rio de Janeiro: UFRJ, 2002. p. 40-41.]


A nação que a ditadura de Getúlio Vargas
(1882-1954) estava construindo era para todos, menos, obviamente, para a população negra, que deveria desaparecer no decurso do processo de embranquecimento.

Aquilo que perturba parcela dos críticos do sistema de cotas – os adversários racistas dos sistema de cotas, não todos os críticos – é a perspectiva de que a sociedade brasileira possa se tornar uma nação onde a população negra tenha um lugar, ou seja, uma nação efetivamente para todos.
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O intolerável

Em maio de 2009, a atriz Maria Mariana concedeu uma entrevista à revista Época “Deus quer o homem no leme” em que defendia a inferioridade feminina e a submissão da mulher ao homem. Recentemente, em uma entrevista concedida a Luciano do Valle, no programa Tudo em dia, da Rede Bandeirantes, o psicólogo e pastor Silas Malafaia afirmou que o homem é um ser racional e a mulher, um ser emocional; que por determinação divina, o homem ocupa a função de autoridade na família; que grande parte dos homossexuais foi abusada sexualmente na infância; que adultos que foram molestados sexualmente na infância apresentam uma forte tendência a abusar de crianças; e que o Projeto de Lei da Câmara n. 122/06, ao declarar que toda pessoa é livre para expressar sua sexualidade, ampara a prática da pedofilia. Na semana passada, em uma audiência pública no Supremo Tribunal Federal, o senador Demóstenes Torres (DEM-GO) sustentou uma interpretação equivocada e racista do tráfico negreiro e das relações escravistas na América Portuguesa e no Brasil.

O impressionante não é o fato de que Maria Mariana, Silas Malafaia e Demóstenes Torres pensem o que pensam, falem o que falam, escrevam o que escrevem, o impressionante é que possuam recepção e tenham repercussão. Todos são livres para pensar e para manifestar seu pensamento, mas há limites, constitucionalmente estabelecidos, à liberdade de expressão. O racismo, por exemplo, é um limite. Como argumentou Alexandre Nodari “A dimensão formal do Direito” , devido à dimensão formal do direito, Demóstenes praticou o crime de racismo na Suprema Corte do país, mas não foi preso em flagrante delito.

Aquilo que atemoriza Malafaia no PLC n. 122/06, contra o qual invectivou no Tudo em dia, é justamente a possibilidade de que não possa mais manifestar impunemente sua homofobia. Analogamente, aquilo que atemoriza os meios de comunicação na Diretriz 22 (“Garantia do direito à comunicação democrática e ao acesso à informação para consolidação de uma cultura
em Direitos Humanos”) do Decreto n. 7.037/09 (Terceiro Programa Nacional de Direitos Humanos - PNDH-3) é a possibilidade de não poderem mais exibir impunemente entrevistas com personalidades como Malafaia ou programas humorísticos como A praça é nossa e Zorra total, que contribuem efetivamente para a reprodução e a perpetuação de representações sexistas, racistas e homofóbicas.

Esta semana, em um artigo publicado na Folha de S.Paulo“O jornalismo delinquente” –, Demétrio Magnoli defendeu a interpretação de Demóstenes acerca do escravidão e criticou dois jornalistas do mesmo jornal, que consideraram que o senador se esforçara por “demonstrar a corresponsabilidade de negros no sistema escravista vigente no Brasil durante quatro séculos” – “DEM corresponsabiliza negros pela escravidão”. Magnoli, corajoso defensor da liberdade de pensamento e expressão, não aceitou o direito de os jornalistas Laura Capriglione e Lucas Ferraz manifestarem uma opinião diferente da sua sobre o discurso de Demóstenes e os acusou de inescrupulosidade e delinquência, por manipularem e falsificarem o passado.


A propósito, eu gostaria apenas que os críticos do sistema de cotas explicassem por que a reserva de vagas a portadores de deficiência em concursos para cargos e empregos públicos não é inconstitucional. O argumento de que essa reserva de vagas é legítima porque está prevista no art. 37, VIII, da Constituição Federal não é uma resposta satisfatória. (Com efeito, nenhuma norma prevista no texto original da Constituição pode ser considera inconstitucional.) Como os princípios, os objetivos, e a sistemática de aplicação da reserva de vagas para deficientes e do sistema de cotas são idênticos, resta saber por que aquela é constitucionalmente legítima e esta, não. Essa é uma questão para a qual aqueles que, como Demóstenes, decretam a inconstitucionalidade do sistema de cotas não oferecem uma resposta verossímil.


Maria Mariana pode ser contrária à violência contra a mulher, mas as ideias sexistas que expôs na entrevista à Época justificam a violência contra a mulher. No Tudo em dia, Malafaia asseverou que é contrário à violência contra homossexuais. Contudo, seu discurso reproduz e perpetua representações homofóbicas que justificam a violência contra homossexuais. Demóstenes Torres que, evidentemente, não é racista, afinal, hoje, ninguém é racista, não percebe nenhum problema em declarar que “Nós temos uma história tão bonita de miscigenação... [Fala-se que] as negras foram estupradas no Brasil. [Fala-se que] a miscigenação deu-se no Brasil pelo estupro. [Fala-se que] foi algo forçado. Gilberto Freyre, que é hoje renegado, mostra que isso se deu de forma muito mais consensual”. Demétrio Magnoli, em sua crítica aos repórteres da Folha e ao historiador Luiz Felipe de Alencastro, a quem acusou de “providencial esquecimento” da história da escravidão na África, providencialmente se esqueceu de defender precisamente essa passagem do discurso de Demóstenes, em que o senador recorda o belo passado de miscigenação da sociedade brasileira, em que as escravas negras se entregavam docilmente à luxúria de seus
proprietários superiores.

Conforme as palavras do psicólogo e pastor Malafaia, no Tudo em dia, é plausível concluir que grande parte dos homossexuais apresenta forte tendência para abusar de crianças, porque muitos foram vítimas de abuso sexual na infância.*
Se Malafaia está convencido de que boa parte dos homossexuais são pedófilos em potencial, problema dele. Sinceramente, não me importo. Ele pode concluir todos os absurdos aos quais sua imaginação e seu raciocínio o conduzirem. Aquilo que me importa, o que considero intolerável, é que uma emissora de televisão exiba um programa em que um indivíduo – cujo discurso se fundamenta em uma dupla autoridade, a da religião cristã e a da psicologia – afirme o que Malafaia afirmou. Se Maria Mariana se submete a seu marido, se faz tudo o que ele determina, problema dela. Sinceramente, não me importo. Aquilo que me importa, o que considero intolerável, é que ela receba espaço em uma revista semanal de ampla circulação para discorrer sobre suas ideias sexistas. A jornalista Martha Mendonça, que realizou a entrevista, concorda com as opiniões da atriz? As demais jornalistas e as redatoras da revista concordam? Com certeza não. Se concordassem, não passariam oito horas diárias, ou mais, na redação. Estariam em seus lares, cuidando dos maridos e dos filhos. Então, por que a entrevista foi considera relevante e foi publicada? Se Demóstenes imagina que as relações entre as escravas negras e seus proprietários superiores foram sobretudo consensuais, problema dele. Sinceramente, não me importo. Aquilo que me importa, o que considero intolerável, é que ele legitime essa representação equivocada e racista do passado mediante a invocação de um conhecimento histórico acadêmico que sustenta o contrário, permaneça impune da prática do crime de racismo e ainda encontre defensores.



* Não deveria ser necessário, mas, infelizmente, torna-se preciso afirmar, com todas as letras. Eu não fui vítima de abuso sexual na infância. Nenhum dos meus amigos gays ou bissexuais e nenhuma das minhas amigas lésbicas ou bissexuais foram vítimas de abuso sexual na infância. Nenhum de nós sente desejo sexual por crianças.
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Arruda, Paulo Octávio, Wilson Lima… E depois?

Estou em um ritmo de estudos intenso, que não está me permitindo acompanhar com a atenção que eu gostaria os acontecimentos políticos em curso no Distrito Federal. Hoje apenas consegui ler a excelente reportagem de Leandro Fortes sobre Paulo Octávio – “Pandora não terminou” –, que informa que o ex-vice-governador do DF recebeu propina de empresas beneficiadas com a aprovação do novo Plano Diretor de Ordenamento Territorial do Distrito Federal - PDOT, instituído pela Lei Complementar n. 803/09, contra a qual o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios ajuizou uma Ação Direta de Inconstitucionalidade, em dezembro do ano passado.

Paulo Octávio resistiu, mas não conseguiu se manter no cargo de governador interino. Se um dos motivos pelos quais se esforçou para se conservar no poder foi a preservação do novo PDOT, ele não deve se preocupar, porque
Wilson Lima, o atual governador interino, sempre se mostrou solícito em relação aos promotores da especulação imobiliária no DF:


… No primeiro mandato [como deputado distrital], foi o que mais apresentou projetos mudando a destinação de áreas. E o Ministério Público, na época, denunciou que empresários e políticos se beneficiavam dessas mudanças com a supervalorização de terrenos. Wilson Lima também foi relator do Plano Diretor do Gama, em 2006. O parlamentar manteve a mesma postura mudando destinação de áreas para postos de gasolina.


Eu me perguntava por que Joaquim Roriz permanecia em um silêncio sepulcral desde o início da crise política, no final do ano passado. Na terça-feira, ele se ergueu da tumba. Hoje, mantive a televisão ligada durante o Jornal Nacional, somente para ver os
filmes do Partido Social Cristão, estrelados por Roriz. A hipocrisia e o impudor de parcela dos políticos brasileiros efetivamente não possui limites. Nos filmes, Roriz comenta os atuais acontecimentos como se não tivesse nenhuma relação com nada do que está acontecendo: como se José Roberto Arruda não fosse uma criação sua; como se Paulo Octávio não tivesse sido seu aliado; como se todos os deputados distritais envolvidos no esquema de corrupção não o tivessem apoiado durante seus mandatos como governador; como se os colaboradores de Arruda que atualmente se encontram detidos na Penitenciária da Papuda não tivessem sido também seus colaboradores.

E agora? Roriz lidera as pesquisas de intenções de votos. Parece surreal, mas é a realidade. O eleitorado de Roriz, ou melhor, o eleitorado de todo político paternalista, pode ser classificado em quatro grupos. O primeiro grupo é composto por eleitores que votam em Roriz por ingenuidade, porque acreditam em suas boas intenções. São os eleitores que o consideram um pai. O segundo grupo é constituído pelos eleitores que votam em Roriz na expectativa de obter uma recompensa. Para esses eleitores, o voto é uma dádiva que concedem ao político para obrigá-lo a lhes ofertar, caso seja eleito, uma contraprestação. O terceiro grupo é formado por eleitores que votam em Roriz porque jamais votariam em um candidato de esquerda. O quarto grupo é integrado pelos eleitores que, embora convencidos de que Roriz seja corrupto, votam nele por reputá-lo um bom administrador.

Quando as suspeitas contra Arruda vieram a público, eu temi que o resultado das investigações da Polícia Federal e do Ministério Público pudessem não conduzir necessariamente a um resultado favorável à sociedade do DF, porque a saída de cena de Arruda poderia conduzir à entrada triunfante de Roriz no espetáculo. Ontem, ele retornou à cena, decidido a ser de novo o protagonista.
Minha esperança é que as investigações da Polícia Federal e do Ministério Público não demorem a enfocar os acontecimentos dos dois governos anteriores, ambos de Joaquim Roriz, a tempo de que a máscara do ex-governador, que renunciou ao cargo de senador para não ser cassado, rache antes do início das eleições.


PS:
Dois colaboradores de Roriz, Benjamim Roriz, Secretário de Governo, e Bauer Ferreira Barbosa, Subsecretário de Apoio Operacional, foram condenados por improbidade administrativa, em decisão unânime dos membros da 6ª Turma Cível do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios. Eles devem restituir ao erário cerca de R$ 7 milhões.
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Política, solo urbano e espaço público no DF

Em um texto acerca dos equívocos de interpretação da mídia na cobertura da crise política no Distrito Federal – “À sombra do escândalo” –, Luciano Martins Costa indica, com precisão, o leitmotiv do grupo de José Roberto Arruda: a manutenção e a expansão dos negócios sustentados pelo poder público, especialmente os negócios imobiliários. Não é uma descoberta. Muito pelo contrário, é o óbvio ululante. Contudo, a mídia não tem conferido atenção ao fato.

Desde o primeiro governo de Joaquim Roriz, iniciado em 1988, o Distrito Federal se converteu em uma terra de ninguém, onde tudo é permitido em relação às apropriações e aos usos do solo urbano e do espaço público. Repito, sem exageros, tudo. Não há limites. Os poucos que existiam foram sistematicamente lançados por terra.

Os projetos urbanísticos de Brasília e das cidades satélites são ignorados e alterados ao impulso das estratégias políticas e dos interesses imobiliários. Todo tipo de irregularidade se torna regular. Por exemplo, na cidade onde moro, Guará, no decurso dos últimos vinte e cinco anos, os proprietários de casas foram autorizados a avançar sobre uma parte do passeio público; em algumas ruas, como consequência, a calçada desapareceu; a determinação de um limite de dois pavimentos para as casas foi revogada; hoje existem casas de até quatro pavimentos, tão altas quanto os edifício residenciais do Guará 1, cuja altura máxima é de três andares; os edifícios residenciais, erguidos sobre pilotis, foram gradeados, sob a alegação de que as grades eram necessárias à segurança,* e, posteriormente, cercados, açambarcando áreas públicas para a criação de estacionamentos para os moradores; os proprietários de imóveis localizados em conjuntos comerciais – originalmente edifícios térreos – receberam permissão para construir novos pavimentos; o resultado são edifícios horrorosos, sem nenhuma harmonia estética, porque cada proprietário construiu sobre seu imóvel térreo um conjunto de andares diferente; foi autorizada a prática de atividades comerciais em áreas residenciais e casas se converteram em pontos comerciais; novas quadras foram construídas no Guará 2, com um planejamento urbanístico medíocre: quadras desordenadas, feias e com pouquíssimas praças; atualmente, no Guará 2, onde a altura máxima dos edifícios residenciais era de seis andares, estão sendo construídos muitos novos edifícios, todos gigantescos.

O Distrito Federal, cujas cidades deveriam ser um modelo para o restante do país, converteu-se em uma ilustração – não a única no país, mas, certamente, uma das mais fidedignas ilustrações – das consequências nefastas da revogação de normas urbanísticas acerca da utilização do solo urbano e da construção de edifícios, para se obter as benesses dos eleitores e para satisfazer aos interesses do capital imobiliário.

A prisão preventiva de Arruda possui um valor simbólico. Entretanto, resta saber que valor prático poderá ter. Por ora, não tenho muitas esperanças de que a situação mude. Joaquim Roriz lidera as pesquisas de intenção de votos. Não importa se ele se candidatará ou não. O mero fato de que seja o nome preferido pela maioria dos eleitores indica que parte da população ou parece não possuir nenhuma noção do que está acontecendo (Arruda apenas deu continuidade as práticas fisiologistas de Roriz), ou compreende com perspicácia o que está ocorrendo, mas não se importa, porque está interessada somente naquilo que imagina que poderá obter em benefício próprio, caso Roriz retorne ao poder.  



* Na sociedade brasileira contemporânea, todas as modalidades de desrespeito aos direitos individuais e coletivos e de atentado contra o espaço público são justificáveis para a preservação da segurança.
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Uma drágea de Laerte

Drágea 177

“Drágea 177”, de Laerte, da série Drágeas 4

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Para começar a semana: Hernan Bas

Para começar a semana, uma seleção de pinturas do artista plástico Hernan Bas, um estadunidense de ascendência cubana, nascido em 1978.


[2003 - Hernan Bas] Apollo with Daphne as a boy Apolo acompanhado de um rapaz como Dafne (2003)
 

[2004 - Hernan Bas] Red herring A distração (2004)


[2004 - Hernan Bas] The day things changed between us O dia em que as coisas mudaram entre nós (2004)
 

[2004 - Hernan Bas] The swan princeO príncipe dos cisnes (2004) 


[2005 - Hernan Bas] Burning up for your love Em chamas pelo seu amor (2005)


[2005 - Hernan Bas] The hero centaur O centauro heróico (2005)


[2005-2006 - Hernan Bas] The blue lineA linha azul (2005-2006) 


[2006 - Hernan Bas] The burden (I Shall leave no memoirs)A carga: eu não deixarei lembranças (2006)  


[2007 - Hernan Bas] Mephistopheles at 17Mefistófeles aos 17 anos (2007)
 

[2007 - Hernan Bas] Mephistopheles at 17 (in his weed garden)Mefistófeles aos 17 anos, em seu jardim de ervas daninhas (2007)


[2007 - Hernan Bas] Mephistopheles at 17 (reading poetry) Mefistófeles aos 17 anos, lendo poesia (2007)


[2007 - Hernan Bas] Mephistopheles at 17 (writing his black mailings) Mefistófeles aos 17 anos, escrevendo suas cartas negras (2007)


[2007 - Hernan Bas] Mephistopheles at 17 (the origin of bats)Mefistófeles aos 17 anos e a origem dos morcegos (2007)


[2007 - Hernan Bas] Mephistopheles at 17 (disrobing for a trip to the surface) Mefistófeles aos 17 anos, despindo-se
para uma viagem à superfície
(2007)

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65 anos do fim de Auschwitz

No dia 27 de janeiro de 1945, tropas soviéticas libertaram cerca de sete mil prisioneiros do campo de concentração de Auschwitz. Dez dias antes, as tropas da Schutzstaffel - SS responsáveis pelo campo tinham evacuado mais ou menos sessenta mil cativos, dos quais milhares morreram na Marcha da Morte. A data é motivo de júbilo para uns, mas também motivo de luto para outros, os quais, inconsoláveis, lamentam que os nazistas não tenham conseguido exterminar toda a população judaica da Europa. No mesmo dia em que se comemoraram os sessenta e cinco anos da libertação de Auschwitz, lápides do cemitério judeu de Estrasburgo amanheceram pichadas com suásticas amarelas.


APTOPIX FRANCE CEMETERY DESECRATED

Christian Lutz, Túmulos profanados (2010)

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Sacrilégio

Somente hoje, no decurso de uma faxina necessária e há muito adiada, apercebi-me de que, há cerca de uma ano, durante uma reorganização de uma das estantes, que se transformara em um caos onde eu não conseguia encontrar nada, cometera um sacrilégio, depusera a Bíblia de Jerusalém entre The male nude, de David W. Leddick, e The comic collection, de Tom da Finlândia (1920-1991). Eu sou ateu, mas sou um ateu respeitoso, não inclinado a blasfêmias e sacrilégios, porque, afinal, posso estar enganado, talvez Deus exista. Preocupado, liguei para Daniela, uma amiga a quem telefono todos os dias, pelos motivos os mais levianos, e também, embora muito raramente, por razões sérias, como era o caso, para perguntar se achava que eu corria o risco de ir para o Inferno. Daniela foi protestante. No tempo em que era protestante, descobriu que, inadvertidamente, tinha colocado O evangelho segundo Jesus Cristo, que ganhara de presente de aniversário, ao lado de suas bíblias. Em pânico, rapidamente arrumou um novo lugar na estante para o livro de José Saramago. Entretanto, depois que começou a estudar filosofia, o ser da Daniela veio-a-ser muito diferente. Ela se tornou ateia, ou agnóstica, não tenho certeza. Ela considerou sublime, ou seja, intelectualmente irretocável, esteticamente perfeito, moralmente irrepreensível, o arranjo livresco. Portanto, na opinião dela, eu deveria manter a Bíblia de Jerusalém exatamente onde estava. Não era o conselho que eu esperava, confesso. Eu sou ateu, reitero. Todavia, como aquele filósofo helênico pederasta, estou convencido de que nada sei. Por prudência, prefiro manter uma política de boa vizinhança com Deus. Não me custa nada providenciar outro lugar para a Bíblia de Jerusalém. Vou mantê-la entre os livros de história da arte medieval. Parecem-me boas companhias.


[Tom da Finlândia] Sem título

Tom da Finlândia, Desenho sem título (1983)

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