Para começar a (última) semana (de 2009): uma citação de Gilles Deleuze
DELEUZE, Gilles. “Controle e devir”. Entrevista concedida a Antonio Negri. In: _____. Conversações. São Paulo: 34, 1992. p. 210-211. (Grifo meu.)
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Assuntos: Citações, Livros e literatura, Para começar a semana
Natan Altman, Retrato de Anna Akhmátova, a poetisa (1914)
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Assuntos: Livros e literatura, Para começar a semana
Pequena reflexão motivada por Avatar, de James Cameron, filme que não vi e não gostei: no passado, visionários eram cineastas como Luis Buñuel (1900-1983), Federico Fellini (1920-1993); hoje, visionários são cineastas como James Cameron, Peter Jackson, os irmãos Andy e Lana Wachowski, Zack Snyder.
Cartazes de Watchmen apresentaram o filme como uma obra “do visionário diretor de 300”, Zack Snyder! Indício da inexorável decadência do cinema, no juízo de críticos apocalípticos. Não acredito em sinais escatológicos, porém. Não compartilho também da crença infundada no evolucionismo às avessas, que defende que o passado sempre era melhor do que o presente. Quem se lamenta porque Buñuel e Fellini estão mortos, não consegue olhar ao redor e ver tudo aquilo que o cinema contemporâneo efetivamente tem a oferecer. E o que o cinema contemporâneo tem a oferecer, a quem estiver disposto a apreciá-lo, não é apenas James Cameron, Peter Jackson, os irmãos Andy e Lana Wachowski, Zack Snyder…
Portanto, relevante é tentar compreender a mudança de significado na ideia de visionariedade. O visionário, aquele que cria mundos cujas imagens transcendem o presente, não é mais um cineasta que nos convida a contestar as representações do imaginário dominante e a imaginar outros mundos possíveis; o visionário é tão-somente um cineasta que, a cada filme, supera a si mesmo e a seus pares na arte (técnica) dos efeitos especiais, que, de meio para a realização de um filme, se convertem no próprio fim de um filme.
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Assuntos: Livros e literatura, Para começar a semana
Para enfrentar as disputas relativas à mudança climática – e à crise ecológica em geral, das quais essas são a expressão mais ameaçadora – é preciso uma mudança radical e estrutural, que atinja os fundamentos do sistema capitalista: uma transformação não só das relações de produção (a propriedade privada dos meios), mas também das forças produtivas. Isso envolve, antes de mais nada, uma verdadeira revolução do sistema energético e de transportes e dos modos de consumo atuais, baseados na dilapidação e no consumo ostentatório, induzidos pela publicidade. Em suma, trata-se de uma mudança do paradigma da civilização, e da transformação rumo a uma nova sociedade, em que a produção será democraticamente planejada pela população; ou seja, em que as grandes decisões sobre as prioridades da produção e do consumo não serão mais decididas por um punhado de exploradores, ou pelas forças cegas do mercado, nem pela oligarquia de burocratas e especialistas, mas pelos trabalhadores e consumidores. Em síntese, pela população, após um debate democrático e contraditório entre diferentes propostas. É o que designamos pelo termo ecossocialismo.
O que é o ecossocialismo? Trata-se de uma corrente de pensamento e de ação ecológica que toma para si as conquistas fundamentais do socialismo – ao mesmo tempo livrando-se de suas escórias produtivistas. Para os ecossocialistas, as lógicas do mercado e do lucro assim como a do autoritarismo burocrático inflamado, o “socialismo real”, são incompatíveis com as exigências de salvaguarda do ambiente natural. Ao mesmo tempo em que criticam a ideologia das correntes dominantes do movimento operário, sabem que os trabalhadores e suas organizações constituem uma força fundamental para qualquer transformação radical do sistema e para a constituição de uma nova sociedade, socialista e ecológica.
James O’Connor define como ecossocialistas as teorias e os movimentos que aspiram subordinar o valor de troca ao valor de uso, organizando a produção em função das necessidades sociais e das exigências de proteção do meio ambiente. Seu objetivo, um socialismo ecológico, seria uma sociedade ecologicamente racional, baseada no controle democrático, na igualdade social e na predominância do valor de uso. Eu acrescentaria que uma sociedade como essa supõe a propriedade coletiva dos meios de produção, um planejamento democrático que permita a todos definir os objetivos da produção e os investimentos, e uma nova estrutura tecnológica das forças produtivas; o ecossocialismo seria um sistema baseado não só na satisfação das necessidades humanas, democraticamente determinadas, mas também na gestão racional coletiva das trocas de matérias com o meio ambiente, respeitando os ecossistemas.
O ecossocialismo desenvolve, então, uma crítica da tese da “neutralidade” das forças produtivas que predominava na esquerda no século XX, em suas duas vertentes, socialdemocrata e comunista soviética. Essa crítica poderia se inspirar, a meu ver, em observações de Karl Marx sobre a Comuna de Paris: os trabalhadores não po-dem se apropriar do aparelho do Estado capitalista e colocá-lo para funcionar a seu serviço. Eles devem “rompê-lo” e substituí-lo por um outro de natureza totalmente distinta, uma forma não estatal e democrática de poder político.
O mesmo vale, mutatis mutandis, para o aparelho produtivo: por sua natureza e sua estrutura, ele não é neutro, mas está a serviço da acumulação do capital e da expansão ilimitada do mercado. Ele está em contradição com os imperativos de salvaguarda do meio ambiente e de saúde da força de trabalho. É preciso, então, “revolucioná-lo”, transformando-o radicalmente. Isso pode significar, para alguns ramos de produção – as centrais nucleares, por exemplo – “rompê-los”. Em todo caso, as próprias forças produtivas devem ser profundamente modificadas. Com certeza, inúmeras conquistas científicas e tecnológicas do passado são preciosas, mas o conjunto do sistema produtivo deve ser colocado em questão do ponto de vista de sua compatibilidade com as exigências vitais de preservação do equilíbrio ecológico. Isso significa, a princípio, uma revolução energética: a substituição das energias não renováveis e responsáveis pela poluição, pelo envenenamento do meio ambiente e pelo aquecimento do planeta – carvão, petróleo e nuclear – por energias “naturais”, “limpas” e renováveis, como água, vento, sol, além da redução drástica do consumo de energia (e, portanto, das emissões de CO2).
Mas é o conjunto do modo de produção e de consumo – baseado, por exemplo, no veículo individual e em outros produtos desse tipo – que deve ser transformado, simultaneamente à supressão das relações de produção capitalistas e ao início de uma transição ao socialismo.
Entendo por socialismo a ideia originária, comum a Marx e aos socialistas libertários, que não tem muito a ver com os pretensos regimes “socialistas” que ruíram a partir de 1989: trata-se de uma “utopia concreta” – para utilizar o conceito de Ernst Bloch – de uma sociedade sem classes e sem dominação, em que os principais meios de produção pertencem à coletividade, e as grandes decisões sobre os investimentos, a produção e a distribuição não são abandonadas às leis cegas do mercado, a uma elite de proprietários, ou a um bando burocrático, mas tomadas, depois de um amplo debate democrático e pluralista por toda a população. O que está em jogo mundialmente nesse processo de transformação radical das relações dos seres humanos entre si e com a natureza é uma mudança de paradigma civilizacional, concernente não só ao aparelho produtivo e aos hábitos de consumo, mas também ao habitat, à cultura, aos valores, ao estilo de vida.
LÖWY, Michael. “Os piores cenários possíveis”. Le Monde Diplomatique. São Paulo, ano 3, n. 29, dez. 2009, p. 7.
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Hoje, na aula de recursos humanos do curso preparatório para o concurso do Banco Central, aprendi que a primeira crise mundial do petróleo ocorreu em 1929, e a segunda, em 1990.
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Assuntos: Breviários, Vivendo e aprendendo
A atual crise política do Governo do Distrito Federal - GDF propiciou aos adversários da condição de Brasília como capital federal uma excelente oportunidade para atacá-la:
… Brasília é […] a capital da impunidade, a cidade que propicia aos governantes a sensação de viver não numa terra sem lei, mas acima dela. Isso, é óbvio, tem relação com seu isolamento geográfico, com a redoma que preserva o poder do contato e da pressão popular.
[BARROS E SILVA, Fernando de. “O teatro exemplar de Arruda”. Folha de S.Paulo, 8 dez. 2009. Opinião.]
É antiga a tese de que Brasília favorece extraordinariamente a corrupção e a impunidade. Roberto Campos (1917-2001), por exemplo, a reiterava com insistência. Contudo, a despeito de sua antiguidade, que lhe confere uma aparência de plausibilidade, os novos defensores da tese, como os antigos, continuam a repeti-la sem jamais empreender um esforço para comprovar sua veracidade factual. Barros e Silva apresenta as seguintes hipóteses, sem tentar demonstrá-las: (1) o principal fator que concorre para que em Brasília a corrupção e a impunidade sejam produzidas e reproduzidas endemicamente é o isolamento geográfico da cidade; (2) o isolamento geográfico mantém os políticos afastados do contato com o povo; (3) afastados do contato com o povo, os políticos não sofrem – ou não sofrem suficientemente – pressão popular.
Na tese em discussão, o contraponto a Brasília, mesmo quando não enunciado, é sempre a cidade do Rio de Janeiro, a capital anterior. Entretanto, a bem da verdade, de acordo com as constituições republicanas, entre 1891 e 1960, o Rio nunca foi a capital do Estado brasileiro, ou melhor, a capital da União. A Constituição de 1891 declarou o Distrito Federal a capital da União (art. 2º). Da leitura do art. 4º das Disposições Transitórias da Constituição de 1934, infere-se que a capital da União era o Distrito Federal. A Constituição de 1937 estabeleceu o Distrito Federal como a “sede do governo da República” (art. 7º). A Constituição de 1946 (art. 1º, § 2º) e a Constituição de 1967 (art. 2º) instituíram o Distrito Federal como a capital da União. Brasília somente se tornou a capital (do Estado brasileiro) com a promulgação da Constituição de 1988: “Brasília é a Capital Federal” (art. 18, § 1º).
Não obstante, a revolta contra a circunstância de o Rio não ser mais a capital pode se manifestar com violenta intensidade, conduzindo a um estado de absoluto descontrole emocional, em que desarrazoadas hipérboles são construídas:
Dentro de alguns meses, em abril de 2010, vão se completar cinquenta anos do ato de agressão mais perverso que já se cometeu, em toda a história nacional, contra uma grande cidade brasileira: a expropriação da capital do país, tomada do Rio de Janeiro e transferida para Brasília. A data vai ser motivo de festa oficial de primeira categoria, com desfile, show e missa; deveria ser um dia de luto fechado. Até abril de 1960, o Brasil tinha o que poderia haver de mais próximo, no mundo inteiro, a uma capital perfeita.
[GUZZO, J. R. “A capital perdida”. Veja, São Paulo, n. 2.134, 14 out. 2009, p. 166. (Grifos meus.)]
A peça política atualmente encenada no palco de Brasília é uma crise regional, que se originou e se desenvolveu no âmbito do governo do DF, não no âmbito da União, não estando relacionada, por conseguinte, à condição de Brasília como capital federal. Comparativamente, seria mais grave do que as crises políticas em curso em outras unidades da federação, como a crise que assola, há meses, o Rio Grande do Sul, governado por Yeda Crusius? Os casos de corrupção que ocorreram na esfera do governo do DF desde o advento da Constituição de 1988 foram numericamente maiores e envolveram valores mais elevados do que os casos que foram registrados nos estados, bem como nos municípios mais populosos do país?
A assertiva de que Brasília favorece sobremaneira a corrupção e a impunidade porque o isolamento geográfico resguarda os políticos do contato com o povo, ao contrário do Rio de Janeiro, onde os políticos estavam em comunicação e convívio intensos e contínuos com o povo, apresenta dois problemas.*
Primeiro. Ignora que a sociedade brasileira da primeira metade do século 20 era uma sociedade diferente. O povo, o conjunto dos cidadãos, possuía representações, valores, ideias e hábitos distintos dos do povo de hoje. Portanto, não há garantias de que, caso a capital (o Distrito Federal) tivesse permanecido na cidade do Rio, o povo brasileiro contemporâneo agiria conforme agia – ou conforme se supõe que agia – o povo brasileiro entre 1889, data da proclamação da República, e 1960, data de transferência da capital para Brasília.
Segundo. Em 1975, os estados do Rio de Janeiro e da Guanabara foram fundidos, criando o novo estado do Rio de Janeiro, com a capital na cidade do Rio de Janeiro. Considerando-se que, nos últimos trinta e quatro anos, governadores, deputados e secretários do estado do Rio, bem como prefeitos, vereadores e secretários do município do Rio, supostamente estiveram, devido às características da capital fluminense, em intenso e contínuo contato com o povo, submetidos, diariamente e de forma direta, à pressão popular, seria verossímil concluir que o estado do Rio e o município do Rio são modelos de atividade legislativa, gestão governamental e moralidade administrativa, imunes – ou, ao menos, um pouco menos propensos – à corrupção, ao contrário da capital da República. Como os fatos refutam essa conclusão, os políticos (estaduais e municipais) permanecem afastados do povo na cidade do Rio, tanto quanto os políticos (federais e distritais) em Brasília, ou a pressão popular não tem sido capaz de surtir efeitos benéficos, seja no Rio, seja em Brasília.
Eu moro no Distrito Federal, mas não me importa se a capital federal é Brasília, Rio de Janeiro, Salvador, Belém ou São Luís. Não me incomodaria se uma emenda à Constituição alterasse a localização da capital do Estado brasileiro. A capital deve estar situada na cidade que ofereça as condições reputadas como ideais para o atendimento dos interesses nacionais. Talvez Brasília não seja essa cidade. Todavia, não porque, isolada no planalto central (em relação à “civilização” no Rio de Janeiro), não permita o contato dos políticos com o povo. O problema da distância entre os políticos e o povo está relacionado a outros fatores, como o esvaziamento da esfera pública, nas sociedades ocidentais contemporâneas, mas também, no caso específico do Brasil, à estrutura do sistema político, à ideia distorcida de res publica compartilhada pela maioria dos políticos, às maneiras consoante as quais parcela dos políticos age em face do povo.
A despeito de Brasília favorecer ou não a proximidade dos políticos com o povo, um fato se tornou (ainda mais) evidente nos últimos meses, como demonstraram as reações dos governos do Rio Grande do Sul, de São Paulo e do DF a manifestações populares: exceto durante as campanhas eleitorais, os políticos não querem nenhum contato com o povo; quando o povo ameaça se aproximar, os políticos reagem com violência.
* Essa proposição não demonstrada inevitavelmente me faz imaginar o Rio de Janeiro da primeira metade do século 20 como uma Atenas moderna, onde os cidadãos se reuniam diariamente nos recintos do Palácio do Catete, do Palácio Tiradentes e do Palácio Monroe, para discutir, agonisticamente, os assuntos políticos.
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Assuntos: Brasil, Distrito Federal, Política
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Assuntos: Fotografia, Para começar a semana
Na Xangai ocupada pelos japoneses durante a Segunda Guerra Mundial, Wong Chia Chi, que no passado recente fora estudante universitária e atriz amadora, é uma espiã encarregada de seduzir um importante oficial chinês, Sr. Yee, membro do governo colaboracionista. Yee é um agente atento, prudente e perspicaz, mas é também um homem arrogante, vaidoso e autoritário, que não reconhece limites ao seu desejo e à sua vontade de poder. Fascinado pela beleza, sensualidade e elegância de Mak Tai Tai, a persona de Wong Chia Chi, Yee, cauteloso e dominador nos primeiros encontros, aos poucos se rende e é dominado. Semiólogo do corpo, dos gestos, da face e da voz, intérprete exímio, Yee se perde no labirinto de signos corporificado por Mak Tai Tai. Ela é uma língua cujas palavras e cujas regras de funcionamento ele desconhece, mas cuja melodia dos enunciados o encanta. Entrementes, à medida que entrega seu corpo, iludindo e dominando Yee, Wong Chia Chi não consegue reprimir as emoções e os sentimentos perigosos que passam a dominar seu espírito. Com angústia e temor, ela percebe que não é mais capaz de controlar os significados de seus próprios enunciados.
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Assuntos: Cinema, Para começar a semana
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Assuntos: Brasil, Distrito Federal, História, Jornalismo, Política
... de tão interessante que é a todos os momentos,
A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,
A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair
Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,
E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos,
Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs
Fernando Pessoa,
Passagem das horas