Somente hoje, no decurso de uma faxina necessária e há muito adiada, apercebi-me de que, há cerca de uma ano, durante uma reorganização de uma das estantes, que se transformara em um caos onde eu não conseguia encontrar nada, cometera um sacrilégio, depusera a Bíblia de Jerusalém entre The male nude, de David W. Leddick, e The comic collection, de Tom da Finlândia (1920-1991). Eu sou ateu, mas sou um ateu respeitoso, não inclinado a blasfêmias e sacrilégios, porque, afinal, posso estar enganado, talvez Deus exista. Preocupado, liguei para Daniela, uma amiga a quem telefono todos os dias, pelos motivos os mais levianos, e também, embora muito raramente, por razões sérias, como era o caso, para perguntar se achava que eu corria o risco de ir para o Inferno. Daniela foi protestante. No tempo em que era protestante, descobriu que, inadvertidamente, tinha colocado O evangelho segundo Jesus Cristo, que ganhara de presente de aniversário, ao lado de suas bíblias. Em pânico, rapidamente arrumou um novo lugar na estante para o livro de José Saramago. Entretanto, depois que começou a estudar filosofia, o ser da Daniela veio-a-ser muito diferente. Ela se tornou ateia, ou agnóstica, não tenho certeza. Ela considerou sublime, ou seja, intelectualmente irretocável, esteticamente perfeito, moralmente irrepreensível, o arranjo livresco. Portanto, na opinião dela, eu deveria manter a Bíblia de Jerusalém exatamente onde estava. Não era o conselho que eu esperava, confesso. Eu sou ateu, reitero. Todavia, como aquele filósofo helênico pederasta, estou convencido de que nada sei. Por prudência, prefiro manter uma política de boa vizinhança com Deus. Não me custa nada providenciar outro lugar para a Bíblia de Jerusalém. Vou mantê-la entre os livros de história da arte medieval. Parecem-me boas companhias.
Tom da Finlândia, Desenho sem título (1983)